quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Olhar estrangeiro



Todos os dias eu passo por um dos lugares mais bonitos da cidade. Olho o chão com aqueles olhos semicerrados de sono e me deparo com as pedras portuguesas tão típicas daqui. Ainda arrastando o lençol, levanto a cabeça ao sair da estação de metro e me dou conta de que ainda não conheci o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes. Juntos, eles formam essa tríade maravilhosa da minha praça-obrigação diária. 


A praça da Cinelândia é fascinante. Aí é bom ser nova aqui, ser uma quase turista nessa cidade. Só quem é novo consegue parar no tempo, na ligeireza da rotina, para reparar nesses instantes de beleza. 

Lembrei do meu Recife. Imaginando quantas e quantas ruas não passaram por mim ao longo de tantos anos sem que eu tivesse o prazer e a generosidade com elas de simplesmente olhar. Fiquei buscando possíveis lugares em que estive e que não me dei ao trabalho de parar, de mais do que olhar, ver. 

Teve aquele dia em que eu andei correndo do Cais de Santa Rita até o Fórum Tomaz de Aquino. Tenho certeza de que naquela tarde, por volta das 17 hrs, o sol desenhava aquele cartão postal lindo da cidade, dando adeus aos recifenses e agradecendo por mais um dia nas águas do Capibaribe. Tenho certeza, mas não vi. 

No dezembro do ano passado, raiar do dia, depois de ter bebericado na rua da Aurora, ter ido parar na rua Tomazina, Moeda e outras tantas daquele Recife Antigo lindo, perdi de ver o amanhecer na Praça do Marco-zero e deixei minhas atenções se perderem em qualquer amigo que pulava no rio, em qualquer outra cerveja na barraca da esquina, em qualquer paranoia de voltar. 

Acho que depois de tantos anos pulando o frevo nas ladeiras de Olinda é que parei para escutar de verdade aquele som que é meu. Era 8h20 da manhã, de uma terça-feira chuvosa, exatamente na praça da Cinelândia. Foi ali que o Rio me trouxe Recife. 

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