terça-feira, 5 de novembro de 2013

Femme fatale

Eu não sou sensual. Mas me emociono ao ver alguém que seja. Uma mulher sensual não é aquela que veste pouco, que fala coisas ou que avança de corpo em cima das pessoas. Uma mulher sensual transfere sua alma ao mundo em pequenos detalhes. Ao balançar ao som de um bom samba, ao cantar um jazz movendo o corpo calmamente de um lado para o outro acompanhando a volúpia do som sem agredir o ar, simplesmente seguindo uma brisa leve à la Nina Simone, ou mesmo ao tirar o cabelo do rosto, ao tocar com jeito nas pessoas, assim, nos mínimos detalhes. Eu tenho um cabelo bem bonito, pelo menos do meu ponto de vista, mas não sei tirá-los do rosto com desenvoltura. Me falta o charme de ser sexy, de compor o meu espírito humano e sexual além. 

Não falo de coxas, quadris fartos, peitos arredondados e proeminentes. Isso são apenas atributos a mais. Já pensou se a minha natureza tivesse fadada ao fracasso da sensualidade desde que nasci e me levanto nessas pernas finas que Deus me deu? Claro que não pode, seria injusto por demais. A sensualidade vem de dentro, de bem dentro. De uma segurança que não mora em mim, que nunca morou. 

Acho bem bonito uma mulher sensual quando chega. Ela tem um brilho próprio acompanhado de muitos, muitos olhares. Os homens ao redor possivelmente gostariam de tê-la ao lado, por sua segurança, pela autoestima bem alimentada, por um quê a mais que a moça de suingue próprio carrega no sorriso. 

A mulher sensual é sensual até quando entorna uma lapada de cachaça. O faz numa desenvoltura de poucos, deixando, quem sabe, uma gotinha percorrer o limiar entre a linha do lábio inferior e o buraquinho do queixo. Pousa o copo na mesa com elegância e cruza as pernas como se ensaiasse uma apresentação de balé. E ri com o olhar; acusa com o olhar; faz sexo com o olhar, e talvez com todos os membros do seu corpo sem sequer sair do lugar. 

A mulher sensual, a verdadeira, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi.

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