sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Consumar e não consumir


Me pergunto, sinceramente, quais foram os motivos que me levaram a comprar o celular tal, que custava metade do meu salário e tinha os mesmos benefícios que o outro que não tinha a maçã mordida. Me pego, vez ou outra, caindo nessas armadilhas deslumbrantes de consumir o que não posso para saciar a necessidade que não tenho.
Isso vai em roupas; sapatos; eletrônicos, que eu uso, mas nem tanto, mas nem sempre, mas nem lembro... O kindle, coitado, não superou nenhum dos cinco livros novos com aquele cheirinho de delícia que a maioria dos livros tem.
No celular, não sei nem botar música, creia! Meu computador poderia ser substituído por uma máquina de escrever facilmente (papel e caneta não, pois sou preguiçosa). Se eu pagasse pra usar o Word estaria, certamente, falida, mas, novamente, pra baixar uma música, filme ou assistir um seriado só Jesus segurando a minha mão.
Felizmente, consigo me conter em relação à maioria dos impulsos, já passei da minha fase Becky Bloom. Hoje, só vez em quando, mas quando acontece bate aquele remorso. Não é que eu me arrependa do Kindle (afinal, a eternidade de livros que tem dentro dele esperando por mim aquece e acalma meu coração, que tenta ser consciente) ou do celular, que virou meu computador para acesso às redes de relacionamento. Mas dá uma inquietação ver aquele casaco de ~couro~ que eu nunca usei, a sandália de salto que está mofada, as três camisetas rendadas que eu nem lembrava que tinha. Fico triste de entrar na onda de suprir faltas inexistentes.
Ao olhar para aquele sapato desgastado, pintado três vezes, pedindo a todos os deuses para que eu o aposente, percebo claramente que meu prazer real está em consumar minhas paixões legítimas. Como quando você está exausta, deitada, partindo para o mundo dos sonhos e aquele cheiro no pescoço e mão na barriga fazem você acordar feliz para realizar, de novo, aquele jeito (o)usado de sorrir. Gasto o que eu gosto como me gasto em quem quero. E é assim que a vida segue sem arrependimentos.  

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