Cheguei já me despedindo, te abraçando como se fosse a
última vez. Talvez tenha sido, mas ter essa dúvida é uma forma de perceber,
tristemente, que o adeus não se concretizou. Podia ser a melhor forma de viver
o presente e também o momento. No entanto, por mais atenta que estivesse àquele
instante, eram sempre as lembranças do passado e a angústia de desperdiçar
nosso curto futuro que me moveram e seguraram suas mãos.
Eu estava ali, não há dúvidas, contida, ressabiada, tentando
ser aquela pessoa sensata que jamais choraria em silêncio porque a partida doía
demais — enquanto, é claro, chorava em silêncio, decorando a sua posição,
sentado de costas, trabalhando. Você estava inteiro, sem medo, nem do presente,
nem do futuro, no máximo, tentando evitar a menção de nomes ou histórias
passadas, porque você também queria a gente e porque, para você, o fim e o
depois não mereciam importância se comparados a nós, ali, deitados na cama,
resolvendo se devíamos ir para o blues (ou para o jazz, ou jantar) ou ficar mais um pouquinho. E fico feliz que nós dois tenhamos
sempre preferido nos demorar um no outro. Sem pressa, com jeito. Você dizia: Eu
troco esse jantar fácil, e eu só precisava sorrir.
A minha vontade de lembrar de tudo, a minha necessidade de
observar todos os cantos, paredes e mensagens da tua casa, as quinas do teto do
teu quarto, o amontoado de instrumentos, me fizeram estar lá de uma maneira
incompleta. Na ansiedade de não deixar nada passar despercebido, de viver tudo
da melhor forma, me proibi de ser inteira, porque eu não podia deixar que minha
impulsividade aceitasse a sugestão dos enganos diários, não podia ceder
àquele instinto de passar um dia inteiro remoendo aquela sua brincadeira ébria
e desajeitada, ao que você, delicadamente, ao perceber meu inusual silêncio,
pedia pra que eu falasse alguma coisa, para que ficasse perto, além dos
abraços, me convidava objetiva e carinhosamente para estar lá, com você. No
meio da confusão de urgências desnecessárias e necessidades declinadas, deixei
esse chamado óbvio à delicadeza a dois passar,
Fico sem jeito ao perceber essa imensidão de carinho — que
tenho vergonha de chamar de amor, mas que não tem outro nome — que você me
inspira...
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